domingo, 29 de agosto de 2010

140 caracteres


Escrever é minha necessidade. 140 caracteres é pouco, mas parece ser o tempo que se tem disponível para compartilhar alguns momentos com um "outro" qualquer. Enunciados com mais do que algumas palavras já não fazem grande "sucesso". E isso é quase um fenômeno da "preguiça". Não adianta, não há tempo para isso ou aquilo. Tudo é rápido demais, então seja claro e objetivo. "Ok", você pensa: 140 e nada mais. No começo parece quase impossível, transmitir ideias, pensamentos, reflexões em tão curto espaço, mas depois você adapta-se e sai alguma coisa ou outra; não se diz necessariamente aquilo que gostaria, mas esse é o espaço: reinvente-o, diga de formas interessantes e talvez algum sentido será construído.
Das epopeias para o romance, dos romances para os contos, dos contos para as crônicas e das crônicas para alguma espécie de "silogismo". A impessoalidade, a velocidade. Não há como negar: "a crise da representação" não sabe mais para onde vamos.

140 caracteres: "um tempo sem tempo e sem lugar, um tempo sem memória, perdido e encontrado, uma colisão de pedaços de almas e de 'saberes'."
Por Suzi Mossmann

quarta-feira, 28 de julho de 2010

O que você "pode" ler?


Tempo. Faz mesmo um tempo que não escrevo aqui. Aqui? É. Você entendeu.

Bom, não sei exatamente o que isto quer dizer, mas há épocas em que escrevo com mais facilidade, no entanto, em outras, as palavras saem um pouco relutantes, não querem sair assim "desavergonhadas" e sem saber exatamente pra onde estão indo. Hoje quero falar pouco, nada além disso. Prometo não ficar com reflexões e tentativas de entender coisas que nem sempre precisam assumir algum lugar. Apenas escrevo. Necessidade de colocar toda essa "desverbalização" no "papel", mesmo que, esse/a apenas siga o fluxo natural das inutilidades que habitam o espaço textual e imagético que nos circunda. E o mais interessante, é saber que o ser lido é algo imenso, algo que proporciona inúmeras possibilidades: cada um lerá aqui ou em qualquer lugar, aquilo lhe significar. O que torna o texto, a palavra em uma vida, não há regras específicas e pré-determinadas, tudo depende de quanto você traz para que isto ou aquilo faça sentido. É incrível. Tecnicamente surpreendente. Cognição. Essa é a palavra.

sábado, 26 de junho de 2010

Invictus

Enquanto tudo acontece, enquanto a copa do mundo torna-se o evento do momento, nem tudo se vê, nem tudo se fala e pouco se pensa. Notícias, belezas, cultura e a mesma ladainha de sempre em textos sentimentais. Filmes que contam o que aquele povo viveu, documentários em museus e alegria colorida de uma nação... No entanto, nada disso será suficiente quando a copa acabar e o mundo passar a pensar em algum outro evento de alguma outra importância social ou cultural. Tudo bem, é esporte. Mas é quase insuportável ler e ouvir o que se escreve sobre esse "momento histórico". Os discursos de poder e manipulação tentam nos levar para algum lugar comum, tentam nos entreter, mas é preciso pensar, conhecer, ir em busca de outras vozes que com certeza não estão sendo ouvidas.
Enfim, tendo em vista que se fala todo tempo da Copa+África+Cultura, encontrei um poema lido por Mandela enquanto esteve durante 27 anos na prisão e que imagino, nem todos saibam, dá nome ao filme do momento: "invictus",sobre a copa de rugby na África e sobre como Mandela consegue utilizar o esporte para amenizar um sentimento de separação e repulsa. Há diversas críticas ao filme, mas não é esse o meu ponto principal no momento; quero antes pensar nesse "invencível" e em como importa saber o que se está fazendo e por que se está fazendo.Algo mais a pensar.

Invictus

De dentro da noite que me cobre,
Negra como a cova, de ponta a ponta,
Eu agradeço a quaisquer deuses que sejam,
Pela minha alma inconquistável.

Na cruel garra da situação,
Não estremeci, nem gritei em voz alta.
Sob a pancada do acaso,
Minha cabeça está ensanguentada, mas não curvada.

Além deste lugar de ira e lágrimas
Avulta-se apenas o Horror das sombras.
E apesar da ameaça dos anos,
Encontra-me, e me encontrará destemido.

Não importa quão estreito o portal,
Quão carregada de punições a lista,
Sou o mestre do meu destino:
Sou o capitão da minha alma.

O poema foi escrito em 1875 por Willian Ernest Henley.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Dizer.


Quando você decide dizer algo, nada mais será igual. Você decidiu dizer e precisa assumir as consequências que poderão vir junto com essa decisão. Não é fácil ir contra o que já está feito, não é simples lutar contra um sistema que é organizado sutilmente e no silêncio da ignorância e do descaso. Dizer alguma coisa ou fazer algo que mexa com as estruturas, exige esforço, exige trabalho e pensar em algumas situações, talvez em muitas, chega a doer. Muitos exemplos tenho presenciado de palavras que podem mudar e de atitudes que não se cansam de injuriar os sistemas. Contudo, o que parece, às vezes, é que falta direção, falta objetivo claro para que as coisas aconteçam de forma diferente. As pessoas precisam sair da zona de conforto, dizer as coisas sabendo o que estão dizendo e entendendo que nada mais será igual caso você saiba do que está falando ou o que está fazendo. Falta sentido. Falta pensar sobre o "dizer". Falta assumir. E muito me incomoda o que tenho visto por aí: uma cretinice sem tamanho, uma preguiça de pensar, uma aceitação e uma serenidade com a brutalidade, uma indiferença que ecoa dia após dia na "inutilidade" de saber o que dizer, na falta de percepção de que o outro só existe em contraste com o "eu". O que será que estão querendo dizer essas atitudes apáticas? Por que não é preciso mais saber dizer?

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Ficam as palavras.


Sexta-feira, 18 de junho de 2010. Um dia chuvoso, nada anormal nisso, afinal estamos quase no inverno. As atividades seguem, o mundo continua seu ritmo de sempre. No entanto, um "new tweet" mudou esse dia normal: "celinaluiza A literatura fica mais pobre... morreu, hoje, aos 87 anos, Jose Saramago...grande escritor português... #sadness" O que dizer depois dessas palavras que quando juntas constroem um sentido que não é fácil de se aceitar?
A vida e as palavras deste escritor foram diferentes: seu estilo violador de regras e sua postura crítica , as polêmicas em torno de suas (re)construções literárias, a ruptura e os questionamentos acerca de uma História com "aga" maiúsculo, a remontagem das visões dos fragmentos de mundo e de saberes, a exposição e o confrontamento do sujeito-leitor com textos que contestem a "Verdade".
É difícil saber que perdemos alguém como Saramago, mas as palavras ficam e afinal é o que podemos deixar registrado: palavras, palavras-pensadas-pensantes-pensáveis.

“aqui, onde o mar se acabou e a terra espera” (Trecho final de o Ano da Morte de Ricardo Reis.)
Trecho de texto postado no blog de Saramago:
“Falei de cultura. Porventura serei mais claro se falar de revolução cultural, embora saibamos que se trata de uma expressão desgastada, muitas vezes perdida em projectos que a desnaturaram, consumida em contradições, extraviada em aventuras que acabaram por servir interesses que lhe eram radicalmente contrários. No entanto, essas agitações nem sempre foram vãs. Abriram-se espaços, alargaram-se horizontes, ainda que me pareça que já é mais do que tempo de compreender e proclamar que a única revolução realmente digna de tal nome seria a revolução da paz, aquela que transformaria o homem treinado para a guerra em homem educado para a paz porque pela paz haveria sido educado. Essa, sim, seria a grande revolução mental, e portanto cultural, da Humanidade. Esse seria, finalmente, o tão falado homem novo.” (postado em 07/05/09.)
http://caderno.josesaramago.org/category/o-caderno-de-saramago/page/2/

"Todo construir começa com o dançar de idéias" F. Nietzsche


"Todos sabemos que cada dia que nasce é o primeiro para uns e será o último para outros e que, para a maioria, é so um dia mais." Saramago

terça-feira, 15 de junho de 2010

Poesia musicada



Nada melhor que uma boa música e um bom livro. Cada um de nós acredita em algo que nos move. Eu teimo em pensar que a poesia aliada à música pode muito.

domingo, 13 de junho de 2010

.Isto.Isso.Aquilo.


"Escrevo rangendo os dentes" O que deveria estar pensando Álvaro- Pessoa- Campos ao escrever sobre um escrever "rangedor de dentes"? O poeta do fazer, do fragmento, escreve, instiga, conta mais do que poderia e menos do que gostaria. É o próprio fingidor em sua essência que faz pensar e sentir e que nesse pensar causa um impacto na vida de quem o lê, não podendo este voltar atrás nas mudanças trazidas pelo "caleidoscópio em movimento" como ele mesmo se designava e, logo, sua poesia. Uma alma barroca que se veste de outras várias e que representa tão bem o tempo que vivemos: um tempo sem tempo e sem lugar, um tempo sem memória, perdido e encontrado, uma colisão de pedaços de almas e de saberes não bem compreendidos ou compreensíveis.
Leio porque preciso, leio porque me alimenta e porque o não saber é cada vez mais sufocante, quando se percebe que nada se sabe. É a infinitude da Biblioteca de Babel de que falava Borges e que em vão tentamos enfrentar e que nos leva ao caos interno, nos leva à eterna busca pelo que pensamos poder saber.
"Tenho febre e escrevo" Poeta fingidor. Poeta do sentir.

Isto
Fernando Pessoa
Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!