sexta-feira, 23 de abril de 2010
Pra ter início esse ano de tantas mudanças, uma dose de Rubem Alves:
Sobre as Memórias
Rubem Alves
Memória é onde se guardam as coisas do passado.
Há dois tipos de memória: memórias sem vida própria e memórias com vida própria.
As memórias sem vida própria são inertes. Não têm vontade. Sua existência é semelhante à das ferramentas guardadas numa caixa. Não se mexem. Ficam imóveis nos seus lugares, à espera. À espera de quê? À espera de que as chamemos. Ao chegar a um hotel a recepcionista nos entrega uma ficha para ser preenchida. Lá estão os espaços em branco onde deverei escrever meu nome, endereço, número da carteira de identidade, do CPF, número do telefone, e-mail. Abro a minha caixa de memórias sem vida própria e encontro as informações pedidas. Se desejo ir do meu apartamento à casa de um amigo eu pergunto: que ruas tomar para chegar lá? Abro a caixa de ferramentas e lá encontro um mapa do itinerário que devo seguir. É da caixa das memórias sem vida própria que se valem os alunos para responder às questões propostas pelo professor numa prova. Se a memória não estiver lá ele receberá uma nota má...
São essas as memórias que os neurologistas testam para ver se uma pessoa está sofrendo do mal de Alzheimer. O médico, como quem não quer nada, vai discretamente fazendo perguntas sobre a cidade onde se nasceu, o nome dos pais, onde moram os filhos. Se a pessoa não souber responder é porque sua caixa de memórias está vazia. Essas memórias são muito importantes. Sem elas não poderíamos nos virar na vida. Estaríamos sempre perdidos.
As memórias com vida própria, ao contrário, não ficam quietas dentro de uma caixa. São como pássaros em vôo. Vão para onde querem. E podemos chamá-las que elas não vêm. Só vêm quando querem. Moram em nós, mas não nos pertencem. O seu aparecimento é sempre uma surpresa. É que nem suspeitávamos que estivessem vivas! A gente vai calmamente andando pela rua e, de repente, um cheiro de pão. E nos lembramos da mãe assando pães na cozinha... Viajando, olhando a paisagem com pensamento perdido, vemos um rio. E a alma começa a recitar“O Tejo é mais belo que o rio da minha aldeia. Mas o Tejo não é mais belo que o rio da minha aldeia. Porque o Tejo não é o rio da minha aldeia.” E nos lembramos então do riachinho em que brincávamos quando crianças.
Uma leitora enviou-me um e-mail em inglês. Desculpou-se. É egípcia. Vive no Brasil, entende bem o português, mas tem dificuldades em se expressar. Disse-me que gostava das coisas que escrevo. Escreveu-me para dizer que uma palavra, uma única palavra que eu havia escrito a apunhalara. Numa crônica que eu escrevera para minhas netas, contando como era a vida na roça, disse que não havia eletricidade. Portanto não havia geladeiras. As comidas eram guardadas num armário de tela chamado “guarda-comida”. Essa foi a palavra que a apunhalou. Como é que uma palavra tão banal pode apunhalar? Não foi a palavra. Foi a lembrança. Ela já havia se esquecido de que essa palavra existia. Aí, quando ela a leu, um passado longínquo retornou. Ela se viu menina na cozinha de sua casa no Cairo. Lá havia um guarda-comida...
“Alma” é o nome do lugar onde se encontram esses pedaços perdidos de nós mesmos. São partes do nosso corpo como as pernas, os braços, o coração. Circulam em nosso sangue, estão misturadas com os nossos músculos. Quando elas aparecem o corpo se comove, ri, chora...
Para que servem elas? Para nada. Não são ferramentas. Não podem ser usadas. São inúteis. Elas aparecem por causa da saudade. A alma é movida à saudade. A alma não tem o menor interesse no futuro. A saudade é uma coisa que fica andando pelo tempo passado à procura dos pedaços de nós mesmos que se perderam.
Minha amiga querida Maria Antônia de Oliveira escreveu:
“A vida se retrata no tempo formando um vitral, de desenho sempre incompleto, de cores variadas, brilhantes, quando passa o sol. Pedradas ao acaso acontece de partir pedaços ficando buracos, irreversíveis. Os cacos se perdem por aí. Às vezes eu encontro cacos de vida que foram meus, que foram vivos. Examino-os atentamente tentando lembrar de que resto faziam parte. Já achei caco pequeno e amarelinho que ressuscitou de mentira, um velho amigo. Achei outro pontudo e azul, que trouxe em nuvens um beijo antigo. Houve um caco vermelho que muito me fez chorar, sem que eu lembrasse de onde me pertencera." (Ceriguela, p.14)
É com esses cacos de memória, pedaços de nós mesmos, que se escrevem romances, estórias infantis, poesia, lendas, mitos religiosos, utopias. Nietzsche dizia que só amava os livros escritos com essas memórias, escritos com sangue. E Guimarães Rosa dizia a seus leitores que, para se ser escritor é preciso conhecer a alquimia do sangue do coração humano. Ler um livro escrito com sangue é participar de um ritual antropofágico. É uma celebração eucarística.
Quando eu contava uma estória para minha filha pequena ela me perguntava: “Papai, essa estória aconteceu mesmo?” Traduzindo em linguagem de adulto: essas memórias são memórias de coisas que aconteceram ou são invenções? Eu ficava quieto, sem saber o que dizer. A explicação seria: “Não aconteceu nunca para que aconteça sempre...” O corpo se alimenta do que não existe. Temos saudade do que nunca aconteceu.
É muito fácil contar o passado usando as memórias sem vida própria. É só coletar os fatos e organizá-los numa ordem temporal e espacial. É assim que se escreve a “história”.
Mas é muito difícil contar as memórias com vida própria. Mia Couto, escritor angolano, sabe disso. Eis o que escreveu: “O que Dona Luarmina me solicita são exactas memórias. E isso é o que eu menos quero. Não é que me faltem lembranças. Estão é espalhadas em toda a minha substância. Meu corpo foi-se tornando um cemitério de tempo, parece um desses bosques sagrados onde enterramos nossos mortos.”
As coisas se complicam quando é um velho contando estórias da sua infância. A saudade mistura tudo. A saudade não conhece o tempo. Não sabe o que é antes e nem depois. Tudo é presente. “A lembrança pura não tem data. Tem uma estação. Que sol ou que vento fazia nesse dia memorável? O devaneio não conta histórias...” ( Bachelard )
Aí vem a confusão. O escritor duvida de suas lembranças e pergunta como a Adélia Prado: “Houve esta vida ou inventei?” Se a Adélia dirigisse a mim a sua pergunta acerca das coisas que eu conto eu responderia. “Se essa vida não houve, quando a escrevo fica havendo...
(Correio Popular, 28/08/2005)
terça-feira, 22 de setembro de 2009
Amor Bastante

"(...)Somos falados pela linguagem". (Derrida)
Amor Bastante
quando eu vi você
tive uma idéia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num só instante
basta um instante
e você tem amor bastante
um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto
Paulo Leminsk - Um poeta Marginal.
terça-feira, 8 de setembro de 2009
Por onde andamos?
Adorno estava tão certo na década de 30, quando teorizou sobre os padrões e hierarquias para a indústria cultural, indústria esta que nos coloca em prateleiras, nos separando e diferenciando pelo que temos e, não pelo que somos.
Por onde andamos? Por que o outro nos incomoda tanto a ponto de preferirmos ver apenas o que nos conforta? Enquanto pensarmos apenas no Eu, o outro não mais terá vez e, o individualismo, resultado de um capitalismo enlouquecedor, ditará as regras: ou você aceita ou está na margem,logo "marginal"!
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
...

O tempo.
Cada momento que vivemos pode ou não tornar-se único, cada dia passado pode se tornar um marco, um ponto estratégico na memória, referindo-se a uma situação que valeu a pena ser vivida. E é tão surpreendente a forma como vivemos a vida, algumas vezes apenas "levando", outras tentando fazer algo que se torne memorável. No entanto, por mais que eu me esforce não consigo lembrar uma coisa de cada dia vivido até hoje, já de outros lembro-me perfeitamente de cada detalhe. Acho que isso deve ter a ver com a intensidade, com a expectativa que criamos para determinados momentos ou ainda, deve ter a ver com a forma como encaramos o mundo. É, o tempo é tão relativo, quanto a memória. Há minutos eternos e dias que passam em um fechar e abrir de olhos. E, às vezes penso "o que estou fazendo para que o dia de hoje não passe apenas, mas para que eu me recorde dele com alguma satisfação ou realização?"
terça-feira, 21 de julho de 2009
Palavra.

Estava lendo outro dia umas poesias de Paulo Leminski e em meio a estas, uma prendeu-me a atenção em especial. São várias definições de poesia que vão desde Goethe a Fernando Pessoa, de Bob Dylan a Valery, passando pela própria definição de Leminski que diz simplesmente "poesia: a liberdade de minha linguagem". E lendo mais a fundo essa liberdade da linguagem, essas palavras que se usa para criar outros mundos, outras sensações, outros pontos de vista, começo a refletir sobre o poder da palavra, sobre o quanto se pode construir ou tornar algo possível através dela, ou quanto podemos mudar nossas vidas a partir de uma palavra mal pensada e dita em má hora. A palavra é por vezes uma aliada, por outras um algoz que, nos condena no momento em que a palavra que proferimos sai de nosso trato vocal sem passar pelo filtro essencial do pensamento e da medição das consequências. E fazemos uso constante da palavra, todo tempo, sem muitas vezes percebermos a impossibilidade de se recuar no tempo, tornando a palavra tão poderosa e tão forte. Nos tempos mais antigos, talvez o de meu avô, a palavra era algo que tinha o poder de um contrato, se algo fosse dito, estava celado um compromisso. Nos dias de hoje, essa possibilidade se perdeu, afinal a essência humana tende a um caos natural. Mas, a importância e a força que a palavra tem mantém-se presente, sendo capaz de resolver a vida ou de mudar caminhos. Como diria Maiakóvski, "uma viagem ao desconhecido".
sexta-feira, 3 de julho de 2009
As confianças, garantias e riscos
Costuma-se pensar sobre tanta coisa e, em meio a tantos pensamentos e leituras , surgiu uma questão, que parece bastante pertinente, "O que é modernidade?" Mais do que um estilo, um costume de vida ou organização social que emergiu da Europa, a partir do século XVII e que se tornou praticamente mundial. Esse período denominado “moderno” pode ser cogitado como o desenvolvimento e intensificação das descobertas científicas, assim como a autonomização e a fragmentação das ciências, a partir de métodos sistemáticos, envolvendo grandes trasnformações econômicas, sociais e políticas. Os modos de vida produzidos também foram alterados pelo desenvolvimento das instituições modernas.
Com o advento da modernidade tudo mudou, o mundo ficou mais rápido, mais caótico no que diz respeito, a tentativa de manter o sistema sob controle, no entanto, a modernidade é caracterizada, segundo Antony Giddens, pelo fato de que não se compreende todos os eventos, o que resulta em uma sensação de as coisas estarem de uma certa forma fora de controle. Para Marx, a modernidade está associada ao nascimento da burguesia e ao declínio do sistema feudal, sendo o capitalismo a força que modela o mundo moderno.
Mundo esse que é muito curioso, afinal quando analisa-se de perto, apenas um desses sutis mo(vi)mentos da modernidade, percebe-se que é mais que um período em nossos livros de História. Com isto, quero conduzir a reflexão a um ponto crucial dos tempos modernos: a Confiança. Sim, isso mesmo, a confiança. Pode parecer que isso não faz sentido, afinal vivemos em mundo em que não se pode confiar em ninguém, mas se lembrarmos de quanto somos dependentes de sistemas que estão fora do nosso campo de conhecimento veremos que, isso tem um fundo de sentido. É interessante, pois outro dia estava refletindo sobre como não domino a forma como funcionam efetivamente o avião, o carro ou o ônibus (tão presente na minha vida) e, mesmo assim, não exitamos em embarcar em algum desses veículos símbolos da nossa luta contra o tempo. O mesmo acontece quando vamos ao médico, ao dentista, ao mecânico, não é que se confie cegamente, mas costumamos ter automatizado o sentimento de que tal sistema não pode falhar justo com a gente. E não falo apenas da física ou da matemática envolvida, mas também da mecânica, das condições climáticas, da capacidade do profissional que ocupa um lugar porque alguém disse que ele poderia ocupar e, nós, na maioria das vezes desconhcemos as origens e capacitações desses "alguéns", mas tudo bem, confiamos mesmo assim. Afinal é necessário, essencial para a sobrevivência em meio a um mundo que anda rápido demais. As decisões precisam ser tomadas e como já diziam por aí "tempo é dinheiro", por isso decida-se logo e, na pior das hipóteses, conte com a sorte.
É, é assim mesmo. Corre-se riscos, esperando que as pessoas e os sistemas "funcionem" como devam funcionar. É mais ou menos isso que vivemos diariamente, afinal a partir do momento que acordamos nesse mundo estamos expostos a fragmentação do conhecimento, das ciências e dos indivíduos que, seguem em um ritmo acelerado rumo aos limites do progresso e das consequências de todo o caos gerado pela própria modernidade.
Assunto para se pensar. No entanto, inesgotável, tendo em vista todas as leituras possíveis e pesrpectivas a se considerar.
terça-feira, 23 de junho de 2009
Por que você tem um "Blog"?
