quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Um pouco de água

Uma lágrima é como um pouco de óleo na máquina cansada
é um pulsar inquieto que lubrifica as entranhas, estremecendo-as
é um suspirar dos olhos castigados pelo esquecimento de um sertão.
Uma lágrima é chegada, é partida, é espera.
é timidez e é impulso
e é refúgio.


Decidida como a noite, ela escorre como o céu em fim de tarde e brilha na ponta do queixo, encontrando a pele suavemente e se atirando abismo abaixo.
A expectativa de abraçar o mundo motiva o impulso derradeiro e lá vem o mergulho, outra lágrima encontra o infinito.



*Iluminura de Martha Barros

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

As palavras acreditavam que possuíam asas
As palavras acreditavam que podiam dançar no espaço entre o sol e a lua.
Tímidas, elas sonhavam que coloriam as memórias e que disfarçavam as olheiras do tempo.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

O gosto era de infinito

Hoje tinha gosto de espaço, de finito tempo esvaído em largos passos depositados um após-o-outro, um após-o-outro no solo de terra fértil, imaginativamente fértil. O contato dos dedos com o ar de fim de tarde e o confronto visual que o pôr do sol disponibiliza fez-lhe perceber que no silêncio os pássaros e as brisas nos reviram com uma sutil intensidade. O gosto era de infinito, de vazio absoluto.
Na mesa, as letras invadiam o tempo e o espaço.
Espaço de carne, tempo de memória.
Na ponta do lápis, a proposição de um universo.
As ideias brotavam ora tímidas, ora temerosas, ora egocêntricas. Elas fingiam que eram únicas, donas de si e do mundo. Iam pelos rios, pelos fios, pelas veias e pelos olhos, transbordavam-se todas, até que outros universos as encontravam, as confrontavam. E, frente a frente com outros modos e hábitos achavam graça, pensavam farsas, corriam soltas. Tocavam as carnes, puxavam os fios, empurravam as veias, assopravam os olhos.
Nos dedos e nos lábios o gosto do tempo, o sabor da história.






sábado, 10 de novembro de 2012

De maneira que...

Enquanto lia outra memória, sentiu um arrepio profundo.
Uma fome de rodas, um desejo de palavras vivas, pulsantes.
Pensava em como seria bom se as palavras viessem mais do que os silêncios, do que os silenciamentos.
Depois ruminava: 'Não que os silêncios não fossem indispensáveis', mas causava espanto que eles se vestissem de silenciamentos e insistissem tanto em aparecer no lugar dos confrontos, dos dizeres de carne, osso e pulso.
Depois sussurrava temerosa: 'Não que não dizer não fosse poético',
mas é que dizer coloria as formas, musicava as letras, provocava o olfato, o ouvido, o olhar.
Em seguida, tomava coragem: 'E quem sabe o tato e o ato não fossem convocados, nessa história, a experienciar os modos de mexer no mundo?'
E pensava: 'onde foram parar os dizeres de outros jeitos, os dizeres de outros lugares?'
De que nome seriam chamados? Com que propósitos seriam convocados ou esfumaçados?
Pensava.
Temia perder o jeito com os fazeres.
Lia outra memória, enquanto havia enquanto.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Refugiados


Fugiu de si pela janela!
Com tantos nomes e sem nem um, nenhumzinho.
Deixou a cama bagunçada de livros, o café na cabeceira, renovado a cada hora.
Abandonou montes de palavras caçadas ao sabor do chá de menta intercalado.
Deixou o papel e a caneta, depois
Se entregou à vista da janela, contou conchas na gaveta, foi correr ao som da noite.
Retornou com areia nas cabelos e com barro nas entranhas
Quis ouvir a melodia do ronrono dos meninos
saltadores,
malabaristas da sala, do quarto e do quintal.
Dos escaladores de pernas, com bigodes de orelha a orelha.
Melodia de olhos aureados, dos passos elegantes,
e de uma silhueta impecavelmente confundida com a alegria de ser.
Quis sentir o pulso atento
na melodia do ronronar ouvida de perto, a doce melodia dos olhos que falam
distraindo o coração.
Refúgio leve,
Recanto certo.



quarta-feira, 5 de setembro de 2012

uma saudade.

Uma saudade de coçar o céu da boca,
de apertar artéria torta, de sentir gosto de tempo.
Um desejo de comer pitanga no pé,
de ouvir LP contando fábulas, sentada no chão da cozinha, enquanto aprende a fazer tranças.
Uma vontade de vento nos olhos,
de brisa no balançar dos cílios do alto da garupa.
Ou no alto da primeira corrida apostada de bicicleta.
Uma memória de raspar os tachos e de esconder as provas do crime.
Lembrança de casa na árvore, de corrida no milharal, de joelho na terra e de tesouro secreto.
O anel de brilhantes do doce da padaria, o entardecer na praia.
Doce, doce saudade.
Risos entre lágrimas, sons dos primeiros passos, feijão queimando na panela.
Uma vitrolinha partida, um anjo sem asas.
Uma saudade das palavras de antigamente.

Assim, despertara Doraleia, cheia de memórias, transbordando de sentidos passados e futuros, entrelaçados no hoje.

Hoje é dia de saudade, pensava insistente.

sábado, 1 de setembro de 2012

Um fiapo de sol

O sol estava quente, de escaldar as memórias.
Um fiapo de tempo recordava o movimento constante das ideias.
Enquanto as veias escancaradas exalavam o sentido da vida.
Gota a gota, dia a dia, linha a linha.
O sol penetrava na pele, agitava as gotas, perpassava os dias e exaltava as linhas, inclusive as de expressão.
No peito o pulsar era descompassado, nada de um 'tum' depois do outro, a coisa estava mais para um "tim", para um "bum".
Na cabeça, nada de uma ideia depois da outra, às vezes, tudo, outras vezes, ecos e noutras ainda uma sinfonia apurada, controladamente organizada.
Nos olhos, um vitral.
memórias de ontem, de hoje e de depois.
O sol estava quente e refrescava as lembranças: passos no barro, voos de balanço, saltos de cascatas imaginárias, caças aos tesouros.
Doces memórias que o calor evocava, despudoradamente.
Na vitrola, nada além do som do vento arremessando as folhas umas contra as outras.
E as ideias sussurrando um emaranhado de sentidos, de melodias inesgotáveis.
O sol entrou na retina e ecoou na carne.