“O poema é feito de palavras necessárias e insubstituíveis.”
(Octávio Paz)
Estar em contato com a poesia é algo notável. Algo que se entranha na mente e se faz presente de forma que não se pode ignorar as experiências que habitam no espaço de um poema. Mas ser poeta não é algo que simplesmente se possa viver sem sair repleto de marcas. É um trabalho intenso e dominante, que guia muitas vezes o sujeito para a obscuridade de uma solidão sem saída.
A poesia tem a função de fundar culturas e de permanecê-las através do tempo, permitindo aos seus amantes, que releiam as tradições, preservando e aperfeiçoando a língua. No entando, a arte poética é, sobretudo a experiência na vida do leitor, que o permite tocar o poema através da exposição, do acidente "incalculado" que acontece nas múltiplas vias entre a poesia que toca e o leitor que é tocado.
E a poesia não pode ser aprisionada em conceitos, ela vai além do corpo, além das mãos, apagando os contornos e transbordando para além dos limites da linguagem e do sentido. Ela é a aproximação, a paixão única que vem e revira tudo na alma do leitor, tirando-lhe o fôlego e devolvendo-lhe o coração. Afinal, é através do coração que nasce o ritmo pulsante da poesia e, é por meio dele que o leitor ama a poesia e guarda-a junto de si, podendo assim sentir o mundo em tempos e intensidades diferentes, como diria T.S.Eliot.
A poesia tem influência direta na cultura de um povo. Uma vez, que é através dela que as sociedades se mantêm vivas e "sadias", sensibilizadas e estruturadas. Nas palavras de Ezra Pound, os poetas fundam culturas inteiras. Deixando sempre um pouco de si, como diria Drummond em seu “Resíduo”. Ao passo que cada poeta de que se fala construiu um universo poético bastante singular. Cada um, de uma forma sem igual fundou uma cultura, marcou um tempo, não esse tempo linear que se diz por aí, mas o tempo que sempre retorna, retoma e vai do fim ao começo, sem deixar designado um ponto de origem, um centro fixo, que não garante a liberdade e apenas reforça a falsa ideia de segurança e tranqüilidade.
Poetas, portadores de múltiplas vozes que ressoaram e ressoam pelos cantos, bordas e infinitos espaços/tempos.
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
terça-feira, 5 de outubro de 2010
Interesses, sim. Mas de forma coerente!

Em meio a tantos tumultos: eleição, falcatruas, pós-modernidades, projetos, pré-projetos, lançamentos e relançamentos de campanhas, planejamento sustentável, entre outros frenesis da atualidade, sinto uma necessidade absurda de me refugiar, entrar em stand by(e) e me pôr a pensar o que fazer com essa sociedade, com esse jogo de interesses que move nossos coleguinhas humanos, porque preciso dizer, em um sentido de desabafo que, do menor nível ao maior, os seres humaninhos são alimentados por seus interesses e, a espécie ou melhor, o teor do interesse que torna a situação mais ou menos 'esdrúxula', talvez a palavra não seja bem essa, mas é o que me vem agora no pensamento. Enfim, de um lugar não muito amplo, em redes sociais reduzidas avisto esse tipo de comportamento descaradamente: numa semana, beijos e abraços e "vote em minha chapa" e "blá blá blá" e, na outra (depois de vencida a eleição, mas com certeza não com o meu 'votinho') surge aquele olhar de nada, aquele mesmo distanciamento que sempre existiu, mas que foi abolido durante os cinco minutos insistentes do pedido de voto. Honestamente, isso não é coisa aceitável pra uma sociedade que se diz desenvolvida, intelectual e seja lá o que significar circular pelos corredores universitários. Protesto e discordo dessa postura "blasé" que camufla e confunde. Interesses, sim, mas de forma coerente.
Politizados, sei.
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
Clarice em Clarices

Clarice escreve de si e de todos com uma simplicidade que vai além das palavras, levando-nos a lugares tão íntimos e comuns; comuns, não apenas no sentido de corriqueiro ou cotidiano, mas antes, em um sentido de “em comum”. Em cartas, crônicas, romances ou contos, sob nome Clarice ou outros, ela sempre escreve de dentro e para fora. No conto “O ovo e a galinha”, Clarice Lispector compartilha uma das situações que atravessaram sua vida: “O falso emprego que me deram para disfarçar a minha verdadeira função, pois aproveito o falso emprego e dele faço o meu verdadeiro.” Em outro trecho, “nem meu espelho reflete mais um rosto que seja meu.”
Clarice compõe minuciosamente, invade espaços que ora parecem triviais, mas que quando vistos de perto, tornam-se pedaços de almas e de lembranças guardadas em um lugar qualquer. E ela o faz com uma inteligência atenta e bem posta, com a intimidade de quem partilha de um mundo que é seu, delineando fragilidades, angústias, memórias, desejos, brilhos e opacidades de vidas que ela habita.
A sutileza de uma Clarice feminina que necessita de uma atenção audaciosa e atraente para construção dos sentidos: “os fios de água escorreram geladíssimos por dentro das mangas até os cotovelos, pequenas gotas brilharam suspensas nos cabelos.” A delicadeza com que a autora do “intimismo” e da singularidade descreve a cena em que Mocinha de “O grande passeio” se refresca antes da ruptura definitiva de uma trajetória contada de maneira florida, sutil, mas sofrida. Já na passagem de “Restos do Carnaval”, Clarice narra o encanto da descoberta de um novo olhar que a menina-moça passa a compartilhar consigo mesma: “ E eu então, mulherzinha de 8 anos, considerei pelo resto da noite que enfim alguém me havia reconhecido: eu era,sim, uma rosa.”Há, em Clarice, a graça de alguns elementos cotidianos e bem marcantes que sempre retornam em vários de seus “falares”; a rosa, aparece como uma espécie de divindade, retratada de forma delicada e graciosa, sem perder a intensidade: “Coloquei-a num copo d’água, onde ficou soberana de pétalas grossas e aveludadas com vários entretons de rosa-chá. No centro dela, a cor se concentrava mais e seu coração quase parecia vermelho.” E em uma passagem anterior, ela afirma: “Eu, em pequena, roubava rosas.” Ainda em outro momento Clarice destaca: “Fiquei boba, olhando com admiração aquela rosa altaneira que nem mulher ainda não era.”
A leitura que se abre diante de nossos olhos ao encontrar as falas bem ditas e bem torneadas da autora que, não fixou identidades únicas, que buscou mais do que dizer, através de sentidos e segredos íntimos que saíram do particular para um mundo fragmentado e tantas vezes (re)contado, é uma leitura de viagem, de retorno e de encontros e desencontros: “Eu que sabia que também se morre em criança sem ninguém perceber.” Ou “Felizmente nasci mulher. E vaidosa. Prefiro que saia um bom retrato meu no jornal do que os elogios. Tenho várias caras. Uma é quase bonita, outra é quase feia. Sou o quê? Um quase tudo.” Há nisso tudo clarices e ainda mais.
"Escrevo porque encontro nisso um prazer que não consigo traduzir. Não sou pretensiosa. Escrevo para mim, para que eu sinta a minha alma falando e cantando, às vezes chorando” Clarice Lispector
domingo, 29 de agosto de 2010
140 caracteres

Escrever é minha necessidade. 140 caracteres é pouco, mas parece ser o tempo que se tem disponível para compartilhar alguns momentos com um "outro" qualquer. Enunciados com mais do que algumas palavras já não fazem grande "sucesso". E isso é quase um fenômeno da "preguiça". Não adianta, não há tempo para isso ou aquilo. Tudo é rápido demais, então seja claro e objetivo. "Ok", você pensa: 140 e nada mais. No começo parece quase impossível, transmitir ideias, pensamentos, reflexões em tão curto espaço, mas depois você adapta-se e sai alguma coisa ou outra; não se diz necessariamente aquilo que gostaria, mas esse é o espaço: reinvente-o, diga de formas interessantes e talvez algum sentido será construído.
Das epopeias para o romance, dos romances para os contos, dos contos para as crônicas e das crônicas para alguma espécie de "silogismo". A impessoalidade, a velocidade. Não há como negar: "a crise da representação" não sabe mais para onde vamos.
140 caracteres: "um tempo sem tempo e sem lugar, um tempo sem memória, perdido e encontrado, uma colisão de pedaços de almas e de 'saberes'."
Por Suzi Mossmann
quarta-feira, 28 de julho de 2010
O que você "pode" ler?

Tempo. Faz mesmo um tempo que não escrevo aqui. Aqui? É. Você entendeu.
Bom, não sei exatamente o que isto quer dizer, mas há épocas em que escrevo com mais facilidade, no entanto, em outras, as palavras saem um pouco relutantes, não querem sair assim "desavergonhadas" e sem saber exatamente pra onde estão indo. Hoje quero falar pouco, nada além disso. Prometo não ficar com reflexões e tentativas de entender coisas que nem sempre precisam assumir algum lugar. Apenas escrevo. Necessidade de colocar toda essa "desverbalização" no "papel", mesmo que, esse/a apenas siga o fluxo natural das inutilidades que habitam o espaço textual e imagético que nos circunda. E o mais interessante, é saber que o ser lido é algo imenso, algo que proporciona inúmeras possibilidades: cada um lerá aqui ou em qualquer lugar, aquilo lhe significar. O que torna o texto, a palavra em uma vida, não há regras específicas e pré-determinadas, tudo depende de quanto você traz para que isto ou aquilo faça sentido. É incrível. Tecnicamente surpreendente. Cognição. Essa é a palavra.
sábado, 26 de junho de 2010
Invictus
Enquanto tudo acontece, enquanto a copa do mundo torna-se o evento do momento, nem tudo se vê, nem tudo se fala e pouco se pensa. Notícias, belezas, cultura e a mesma ladainha de sempre em textos sentimentais. Filmes que contam o que aquele povo viveu, documentários em museus e alegria colorida de uma nação... No entanto, nada disso será suficiente quando a copa acabar e o mundo passar a pensar em algum outro evento de alguma outra importância social ou cultural. Tudo bem, é esporte. Mas é quase insuportável ler e ouvir o que se escreve sobre esse "momento histórico". Os discursos de poder e manipulação tentam nos levar para algum lugar comum, tentam nos entreter, mas é preciso pensar, conhecer, ir em busca de outras vozes que com certeza não estão sendo ouvidas.
Enfim, tendo em vista que se fala todo tempo da Copa+África+Cultura, encontrei um poema lido por Mandela enquanto esteve durante 27 anos na prisão e que imagino, nem todos saibam, dá nome ao filme do momento: "invictus",sobre a copa de rugby na África e sobre como Mandela consegue utilizar o esporte para amenizar um sentimento de separação e repulsa. Há diversas críticas ao filme, mas não é esse o meu ponto principal no momento; quero antes pensar nesse "invencível" e em como importa saber o que se está fazendo e por que se está fazendo.Algo mais a pensar.
Invictus
De dentro da noite que me cobre,
Negra como a cova, de ponta a ponta,
Eu agradeço a quaisquer deuses que sejam,
Pela minha alma inconquistável.
Na cruel garra da situação,
Não estremeci, nem gritei em voz alta.
Sob a pancada do acaso,
Minha cabeça está ensanguentada, mas não curvada.
Além deste lugar de ira e lágrimas
Avulta-se apenas o Horror das sombras.
E apesar da ameaça dos anos,
Encontra-me, e me encontrará destemido.
Não importa quão estreito o portal,
Quão carregada de punições a lista,
Sou o mestre do meu destino:
Sou o capitão da minha alma.
O poema foi escrito em 1875 por Willian Ernest Henley.
Enfim, tendo em vista que se fala todo tempo da Copa+África+Cultura, encontrei um poema lido por Mandela enquanto esteve durante 27 anos na prisão e que imagino, nem todos saibam, dá nome ao filme do momento: "invictus",sobre a copa de rugby na África e sobre como Mandela consegue utilizar o esporte para amenizar um sentimento de separação e repulsa. Há diversas críticas ao filme, mas não é esse o meu ponto principal no momento; quero antes pensar nesse "invencível" e em como importa saber o que se está fazendo e por que se está fazendo.Algo mais a pensar.
Invictus
De dentro da noite que me cobre,
Negra como a cova, de ponta a ponta,
Eu agradeço a quaisquer deuses que sejam,
Pela minha alma inconquistável.
Na cruel garra da situação,
Não estremeci, nem gritei em voz alta.
Sob a pancada do acaso,
Minha cabeça está ensanguentada, mas não curvada.
Além deste lugar de ira e lágrimas
Avulta-se apenas o Horror das sombras.
E apesar da ameaça dos anos,
Encontra-me, e me encontrará destemido.
Não importa quão estreito o portal,
Quão carregada de punições a lista,
Sou o mestre do meu destino:
Sou o capitão da minha alma.
O poema foi escrito em 1875 por Willian Ernest Henley.
quinta-feira, 24 de junho de 2010
Dizer.

Quando você decide dizer algo, nada mais será igual. Você decidiu dizer e precisa assumir as consequências que poderão vir junto com essa decisão. Não é fácil ir contra o que já está feito, não é simples lutar contra um sistema que é organizado sutilmente e no silêncio da ignorância e do descaso. Dizer alguma coisa ou fazer algo que mexa com as estruturas, exige esforço, exige trabalho e pensar em algumas situações, talvez em muitas, chega a doer. Muitos exemplos tenho presenciado de palavras que podem mudar e de atitudes que não se cansam de injuriar os sistemas. Contudo, o que parece, às vezes, é que falta direção, falta objetivo claro para que as coisas aconteçam de forma diferente. As pessoas precisam sair da zona de conforto, dizer as coisas sabendo o que estão dizendo e entendendo que nada mais será igual caso você saiba do que está falando ou o que está fazendo. Falta sentido. Falta pensar sobre o "dizer". Falta assumir. E muito me incomoda o que tenho visto por aí: uma cretinice sem tamanho, uma preguiça de pensar, uma aceitação e uma serenidade com a brutalidade, uma indiferença que ecoa dia após dia na "inutilidade" de saber o que dizer, na falta de percepção de que o outro só existe em contraste com o "eu". O que será que estão querendo dizer essas atitudes apáticas? Por que não é preciso mais saber dizer?
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