segunda-feira, 5 de dezembro de 2016


O ano ainda pode ser salvo pelo canto da cigarra.
No ouvido, o eco da lembrança infantil fazendo o coração se embalar ao som das corriqueiras ideias materializadas no ato de correr até mais tarde na rua, de esquecer os deveres de casa, de comer milho verde na praia em tarde com cheiro de sal e vento. 
No olfato, a lembrança do sol que se demora a esconder e que faz o pensamento sentir que hoje ainda é tempo de ser mais.
Pulsa o desejo.
Pulsa. Tato. 
Pulsa o desejo de sair e de tomar o mundo pelos fios de luz que se perdem no mar. Visão.
E vale o sentido de inquietude que conserta o mal empregado tempo dedicado ao tudo que esmaga a vontade de menos, de só ser.
Outras perguntas, novas perguntas e mais amanhã.
Abençoada arquitetônica em dezembro.
Salvem as cigarras e sua tonal presença nas encenações de certos dias.





domingo, 3 de julho de 2016

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Uma mente que não silencia e que exausta procura um segundo, um milésimo de sentido do exato instante em que submersa se escuta, se pressente.
O minuto presente, o anseio pelo eterno ajeitar das ideias intranquilas e inquietas. As perguntas que miram um percurso que não se pretende definido e que se enluta pelo definitivo, pela bamboleante sensação de que a incerteza não cabe na admissão de um trajeto complementado pelo que se entende para além do que se dúvida, do que não se sente, não se entende.
A tarefa de entrecruzar mundo-ideia-sentido-formato e de sobre e dela viver, constantemente em estado de desacordo, em estado de desalinho.
O árduo propósito de dela se alimentar e propor que a alteridade nela se reconheça, o cansaço por ter o ar como mirante do concreto, do palpável, e por se afastar ao se aproximar do provisório recorte do seu melhor ‘agora’, do seu mais bonito ‘depois’.
Estações de aqui, bom inverno, estimado verão, anúncio metalinguístico do que sempre se pode ser quando se está indo.
Um sabor.
Um espectro.

Um ensejo.


























sexta-feira, 13 de maio de 2016

Mulher valente, sim!
Mulher que orgulha, sim!
A queda pelos acertos é o que dói e o que assusta.
Olhai e vê.
Somos uma piada como leitores, como participantes ativos de nossas comunidades, de nossos bairros, que dirá de instâncias outras.
Não sabemos como funciona o sistema de governo, não sabemos quem ocupou os ministérios, não sabemos quem os invade agora, mas se a Dilma saiu, estamos felizes, estamos vitoriosos. Uma partida de bafo vencida?
Uma celebração ao ódio é o que vejo. E a História dirá e lembraremos disso? Tenho minhas dúvidas, já que a formação do leitor, do sujeito que reflete sobre o que lê já está sendo mutilada. As indignações com o que poderia ter sido feito e não foi residem em mim, mas o que foi feito deslocou tantas possibilidades para os que estavam alijados da possibilidade de saber que tinham possibilidades que isso devastou os senhores e senhoras da manutenção do status quo.
E eu rumino em mim que se ao menos eles dissessem em alto e bom som que desejam tudo para si, que não aceitam mulher no poder, que incomoda a diferença, que incomoda o amor entre as pessoas, que desconforta profundamente o compartilhamento dos espaços e dos bens e que sua proposta de ressuscitação do que eles entendem por Economia é cortar direito trabalhista, sim, é cortar investimento em Pesquisa, em Educação, sim, e é desossar o Brasil entre os abutres que cercam há tempos a carne que ainda respirava.
Algumas dessas intenções se materializam em algumas Propostas de Lei (PL) e Propostas de Emendas à Constituição (PEC).
PEC 143/2015 - Desvincula a obrigatoriedade de investimento em Educação, Saúde e Tecnologia de 25% da grana enviada pelo Governo para isto.
PL 867 - prevê a inclusão de cerceamento nas escolas de discussões que invalidam na origem a proposta de formação de um sujeito que pense, que analise a situação em que vive para além da sua realidade imediata.
PL 3842 - retira da condição de crime a exploração do trabalhador. Quer dizer, que pode deixar a pessoa em situação degradante de trabalho, pode tacar nela uma jornada de trabalho a la século XVIII.
PL 4193 - tchau, CLT. Leis trabalhistas? Pra quê? O sujeito não precisa de 1h de almoço, gente. "Em 15 minutos todo mundo consegue comer algo e voltar pro trabalho"
PL 4193 - tchau, CLT. Leis trabalhistas? Pra quê? O sujeito não precisa de 1h de almoço, gente. "Em 15 minutos todo mundo consegue comer algo e voltar pro trabalho". (duas vezes de propósito)
PEC 171 - essa eu sei que um monte de gente aplaude de pé, mas tá aí, redução da maioridade penal acabando com a criminalidade no Brasil, quiçá no mundo!
PL 3722 - e pra completar, vamos começar a liberação mais frouxa do armamento, já que é bem assim que a gente vai reduzir a violência, e olhar pras pesquisas, que mostram o quanto isso tem sido devastador nos lugares em que tudo ok pensar que isso resolve, não precisa. (Ironia... tenho precisado avisar e isso me preocupa na ideia da formação do leitor).
PL 6583 - E lá vem o estatuto da família. Pra que isso, gente? Na boa... nem digo nada.
PL 478 - E a consolidação da hipocrisia em mais uma de suas facetas: criminalização do aborto e mais uma afronta aos direitos das mulheres e de toda uma discussão que não tem cabimento.
PLS - licenciamento ambiental especial para atender aos interesses dos grandões de cada cidadezinha desse país.
E há outras medidas e propostas, mas tem que ir atrás, ler e ler e ler.
Os discursos parecem de progresso, de segurança e de liberdade aos que 'merecem'. E aí, me parece que temos que ter mais claro o que exatamente a gente quer e pra onde a gente quer que o Brasil vá, mas eu não acho que as pessoas pensem efetivamente sobre isso, não acho que leiam mais do que as manchetes e depois escutem o Bonner, o Wack e sei lá mais qual opinador tendencioso.
E vejam que a questão de ser tendencioso é fingir neutralidade, coisa que não se faz quando se assume o que se está defendendo. Por isso, me incomoda, sim, que não digam ao que vieram e que sorrateiramente digam que fazem algo por um país que não conhecem e que não procuram conhecer, ou pior, que conhecem e desejam ignorar, destilando seus odiozinhos aos que não chegaram primeiro e que não ocuparam espaços privilegiados quando isso ainda era uma questão sobre a qual não havia legislação, ou que exploraram até a invalidez um punhado de gente que alimentava suas riquezas.
Pensar dói, imobiliza em alguns momentos, mas não aceito nessa vida menos que isso.
Dilma sofre por acertar. E isso é tão recorrente na vida que chega a doer no fundo.

sábado, 19 de março de 2016

Posicionar-se é preciso.

A quem interessar compreender melhor os posicionamentos que estão sendo necessários nesse momento. (meu olhar)
Temos processo de impeachment; investigações relativas a atos de representantes, que elegemos, no que concerne a desvios de dinheiro, tratados imorais, ilegais; acordos e delações premiadas. Temos também um cenário de crise generalizada, mas que não se sabe bem onde começa, onde termina. Sabemos, eu acho, como começou e por quais razões.
Temos bombardeios de informações de todos os lados. E não me iludo quanto ao poder do discurso e dos dizeres. Desconfio sempre e vou trilhando caminhos que me parecem relevantes para entender o que vem acontecendo. Ou seja, informar-se e organizar argumentos pautados na fala de Bonner não me parece muito sábio, pelo contrário, me parece a busca pelo caminho mais curto e que mantém o pessoal na vala comum dos pensamentos que não exigem argumentação, já que quando você está no lugar ‘seguro’ basta apenas juntar-se ao coro dos que estão reforçando os gritos pelo bem comum (de quem? Pergunta que fica meio suspensa), pelo apartidarismo (isso existe? Sério mesmo que te convenceram disso?), pela ética (a coisa vai complicando). Simplificando bastante aqui a coisa toda.

Temos áudios vazados, recortes de vídeos e informações lançadas loucamente e estrategicamente em noticiários, que juram indignação e imparcialidade, e nas redes sociais. E, de novo, como alguém que estuda o signo, lamento informar, mas ele é sempre ideológico. Tipo, sempre. Estou aqui falando de um lugar muito claro e ao que digo juntam-se as tantas outras postagens e escolhas que tenho feito e que legitimam mais ou menos o meu dizer para uns do que para outros. Convivamos com isso, porque vais nos ajudando a entender melhor o entorno em relação ao que compreendemos do que está sendo dito, feito, dos caminhos trilhados.
Temos também uma Constituição e pela história dos nossos leitores e do nosso cenário educacional, duvido muito que conheça um grande número de pessoas que já tenha jogado no Google: Constituição + Brasil + História. Mas sempre é tempo.
Vamos seguindo, temos estratégias e lutas pelo poder, temos contradições e um cenário bem complexo pra avaliar e compreender. Já ouvi bastante que a luta pelo poder é óbvia e não estamos aqui questionando isso.
Mas temos, também, e isso me parece muito importante, pra mim, fundante e fundamental, projetos de sociedade. Entendo que isso possa ser novo pra muita gente, mas em minha compreensão isso é definitivo para os alinhamentos que estamos assumindo ou não nesse momento. 
Temos descontentamentos compartilhados em relação ao que era esperado e não foi assumido pelo governo atual, ainda que não veja como não se possa perceber ao longo da última década o caminho trilhado, a mudança em relação aos direitos adquiridos para os que estavam soterrados em uma espécie de determinismo do nascer-morrer no mesmo lugar. Memória seria conveniente agora.
Mas estaria sendo cruel se considerasse que a falta de memória é o grande problema da nossa população, não é, uma vez que, novamente, se olharmos para o passado de nossos pais e avós, se perguntarmos sobre as possibilidades de escolarização e de acesso a bens culturais, entenderemos que assumir um posicionamento, que ter acesso a discussões, debates e embates dessa natureza exige caminho, exige memória e vivência de que algo que não estava disponível do modo como está hoje. E não estou falando em mitos de ascensão e progresso por meio de uma educação para a reprodução e reconhecimento do dado. É ingênuo e insano depositar toda a mudança numa concepção de leitura e de escola descolada da prática social efetiva e das condições sociais, econômicas e históricas.
Então, a coisa toda é complexa. De um lado, o projeto de sociedade de que compartilho e que luta e busca direitos, combate a desigualdade, o preconceito, a intolerância, a simplificação de problemas sociais e políticos, que se posiciona contra a negação de políticas de ação afirmativa e a necessidade de lidar com questões históricas que nos levaram a ter uma configuração de sociedade que não se reconhece nos lugares onde está. O que não quer dizer que não se viva contradições e que não se experimente da condição humana quando se compartilha de ideias que defendem o direito de uma vida com dignidade para o povo. Temos nossos próprios embates relativos aos diferentes modos de se pensar e viver tudo isso.
De outro lado, temos um projeto de sociedade que defende o privilégio e a manutenção dos lugares garantidos por nascença ou mérito (lógica cruel quando se sai por aí e se olha um pouquinho melhor o contexto). Um projeto que também chama para si o direito de dizer-se ético e favorável ao cidadão 'de bem'. Discordo do projeto pelas contradições que me parecem segurar as ações e os lugares desses sujeitos, pelos disfarces que utilizam para convencer a maioria, por entender a importância da massa. Discordo por inúmeras razões e entendo que esse é um tipo de discordância de base, de projeto de sociedade e, aí, parece que estamos falando línguas distintas.

E como nada é tão dicotômico quando se trata da vida e da sociedade, temos os pecados do nosso governo atual e temos milhares de interesses de inúmeros lados que discordam dos projetos de sociedade postos em discussão. Não dá pra recortar o nosso bairro num país como o Brasil e tomar como representativo da vontade do povo, não dá pra ignorar o que foi feito e não dá pra selecionar um desejo de justiça alimentado pelas escolhas dos nossos (de)formadores de opinião. Não dá pra ignorar como a gente age no dia a dia e se colocar num pedestal de retidão e sair apontando o outro como em menos condição de humanidade que nós.
Claro que entender o que se passa agora exige muito mais, exige aprofundamento. Claro que desde sempre é parte do senso comum a vinculação da política à politicagem e isso nos leva a sair com frases de efeito, frases prontas sobre a atuação dos políticos que elegemos. Claro que temos uma sensação de desesperança e que parece que qualquer coisa é melhor do que ficar sendo feito de palhaço quando o Bonner nos joga na cara todo dia uma história tragicômica sobre nós mesmos. Mas me intriga o quanto a gente se afeta seletivamente. Porque os nossos problemas da comunidade passam batido, os nossos problemas do município e do estado parecem esquecidos e a gente se desespera e aproveita pra falar tudo de uma vez, mas sem se envolver mais do que no descontentamento das frases prontas.
É complicado. É cheio de nós e de desdobramentos e pensar sobre isso dá nó na cabeça e no coração. Mas também causa nó, e na garganta, ver como nos comportamos e como ignoramos a complexidade da vida, como abrimos mão de parar um pouco de esbravejar pra pensar o que leva o nosso amiguinho a se alinhar a um lado, a outro, ou a outro.
Em tese, vivemos e organizamos nossa sociedade coletivamente. Queira você ou não, somos sujeitos sociais, históricos e cheios de contradições. Lutou-se e se luta pelo direito, porque o instinto nos faz querer a comida toda, o território todo, a razão sempre. E ao outro, um nada, porque ele não chegou primeiro, porque ele não é rápido, porque ele não nasceu onde e quando deveria ter nascido para poder desfrutar do direito de ter casa, comida, escolha.
E por aí vai.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Ainda vou me consumir de tantas palavras que aprendi a não dizer, que aprendi a não dar forma.
Ainda vou me esvair de tantas culpas, de tantas ausências de razão, de tanto ar que me sufoca a glote.
De dentro do olho me salta um pulsar cheio de não ditos sentidos e ressentidos. De fora, me vem uma avaliação constante que me respinga na cara e me faz saber que não sei das maneiras adequadas, que perdi a intensidade na última parada e que por causa da experiência que engoli a seco muitas vozes virão ao meu encontro e eu ficarei entre elas, afogando os pedaços de um eu que só existe na abstração.
Por trás da lente do analista, explico meus não sentidos, dou formas e delimito conteúdos, ainda que desorganizadamente. Dou lugar aos anseios, arrumo os descontroles, dou nome aos excessos e tranquilizo os vizinhos dos meus sentimentos.
Disfarço a falta de entendimento com um sorriso discreto, largo palavras aleatórias na linha do tempo tentando apagar o ego que me confronta e me sufoca contra o espelho.
Calculo o tempo que leva pra que ocorram atenuações possíveis das minhas impulsivas e impossíveis contradições.
Discorro sobre o que vejo nos horizontes, traço linhas imaginárias que logo se tornam um emaranhado de fios que ligam fragmentos do passado, do presente e das minhas memórias de futuro.
Os emaranhados crescem, o caos me adormece. Sinto frio pelo que deixei de dizer, sinto um espaço em branco pelo que deixei de sentir. Acordo com fome e com vestígios de ferrugem nos olhos, nos lábios. Devolvo os caóticos dizeres e prometo não mais ignorar as partes do que fui e do que penso ser. Concluo que tudo isso é complicado demais e que escrever em primeira pessoa torna tudo isso banal, texto cansado, inapropriado. Perfeito. Aprendi que não se deve dizer sem medir os ecos, sem medir os estalos e os ruídos. Descobri que é exaustivo tentar fazer medições do que quer que seja.
Ordem: Devolva esse alterego pra gaveta e tudo fica bem. Ligue a TV, leia um livro, escreva um rascunho do que sente. Logo, o sono vem.

Acordo com o meu Leminski do lado. 

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Uma palavra.
e
Um minuto depois diante de um imenso corredor pouco lapidado
Infinito e vertical
Depois, horizontal.
Dentro e fora dos olhos.
Dias passados e a maré ainda invadindo os espaços indevidos.
Indevidos porque assim foi definido.
Horas ultrapassadas e uma palavra
Mesma e outra.
A falta de imaginação do que se quer/pode/deve dizer quando interpelado.
Um sobressalto, e, ainda, o amargo sabor do que não se pode ignorar.
O chá no sofá, os sons insistentes, o incenso de baunilha

E a palavra.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Dizer por dizer ("qualquer coisa de intermédio")

Eu escrevo pra justamente não ser
eu
ser outro
Pra dizer bem dito
mal dito
pra rir das infâmias, pra contar vantagem
pra descontar os minutos passados no parto
Dou nomes, dou caras, disfarço ideias, finjo insights
pra não perder a memória
Faço cisões aleatórias
Jogo pro alta as palavras, insinuo um desastre,
enceno um disfarce.
Eu-mudo.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

per-Curso. Recurso.

Aos 3 anos arrastava as letras pra dentro de casa, fazia esculturas com o gosto dos sons
Aos 5 anos contava a si mesma os segredos das formas que se disfarçavam por detrás das palavras
Aos 8 anos desbravava universos, construía castelos, dava vida a princesas, perturbava os segredos
Aos 11 anos escrevia poemas, tinha 3 leitores, contando seus pais e irmão.
Aos 13 abominava os espelhos e colecionava palavras em segredos, sentidos sem formas e clichês manjados em famílias inteiras
7 anos mais tarde descobrira que certas ideias ficavam melhor esquecidas e que contar histórias não era pra qualquer um.
2 anos depois tinha medo das formas, abandonara as palavras receando desrespeitar seus nomes.
Calou sua fome, esperou que passasse.
Não passou, não passava.
Dias de sol, dias de chuva, nublados, radiantes e a fome, a sede dos olhos.
Mais 3 anos, mais 7, menos 8.
Buscava outras modas, angustiada pela ânsia que causa a fome.
Sentia vontade de arrastar novamente as letras pra dentro de casa, contar segredos a si, egocentricamente, sentia que poderia perturbar outra vez os castelos e as princesas, trepar por sobre as assonâncias, voltar as suas medíocres combinações.
Ainda odiaria os espelhos, mas, dessa vez, os deixaria inquietos.
Experimentaria os nomes e deglutiria-os sem remorsos, faria deles paçoca e depois voltaria a eles sem temores, sem receios.
Deixaria, ainda, espaço para os clichês, aceitaria que não entende nada de ser poeta, que não entende nada de fazer as letras casarem conforme sugerem os mandamentos, chutaria o pau da barraca, faria de conta que  contava segredos novos, que compartilhava ideias que interessassem a alguém.
Contaria histórias como quem se alimenta pela primeira vez depois de meses a perambular por estradas.
Usaria a fome e as letras e riria de si, e de suas patéticas histerias e diria que a fome faz coisa com a gente e pronto.
10 anos depois e isso tem nome. Diz que chama paralelismo, mas eu gostaria que se chamasse nostalgia.
20 anos depois e 4 leitores, contando os pais e o irmão.






quinta-feira, 16 de maio de 2013

ex-te-se

Entre o ser e o sentido um assovio fininho despertando estesias
De dentro do espelho um doce hálito que se achega com as gélidas brisas de um inverno qualquer
Ares que encolhem o corpo pra dentro do plexo solar
Frontal exposto em olhos de algodão
Plácidos
exaustos e esfomeados diante do frescor das folhas caídas,
das bailantes fiações que adornam as nostálgicas vias.
Estonteantes e arrebatadoras brisas que se insinuam
roçam os cabelos sem pudores, com rumores
exigentes brisas que guiam os olhos, a boca e o tino em direção às límpidas constelações
de acinzentadas cores interpenetradas pelas faíscas, pelos lampejos das noites,
pela melancolia dos dias ofuscantes.
Doces sabores de um vinho em dia de um vaidoso outono.



quinta-feira, 25 de abril de 2013

Indecorosamente

Das certezas que Dora tem e tinha e dos confrontos relutantes gestados entre certezas e as contradições inerentes a elas, apenas uma parecia permanecer intocável.
A primeira vez que Dora provara o sabor de uma nota que tocava o fundo do olho da garganta, ela soubera que poderia encontrar aquele sentido onde quer que estivesse.
Sem repetições frouxas ou decorativos dizeres, só ela e as memórias de um tempo concorrente, co-ocorrente.
Tantas certezas abandonadas na beira da estrada e tantas ausências cantaroladas na expectativa de uma atenuância silenciosa.
Falta do que fazer, falta do que pensar, falta do que comer.
A certeza de um naco de cada um dos que estão e dos que são.
E, ali, intocável, uma porção de caquinhos brilhantes em formas de sons, materializando a experiência do que não se pode dizer e que ao ser tocado se esvai, se esfarela no tempo feito palavras que impetuosamente insistem em dar corpo às auroras, aos parélios, aos penitentes e aos catatumbos.
A certeza era dessas que não se pode sentir, dessas que abstraídas do seu espectro perdem a opacidade que faz a graça.

https://www.youtube.com/watch?v=eAA3KF-VBac

terça-feira, 9 de abril de 2013

Dos calares.


Parecia que olhava de dentro dos olhos do mundo.
Cheia de fome de tudo
mas invadida pelo peso de um receio intermitente.
Com a voz quase muda, num sussurro, deseja 'bons dias' e 'tardes'
Quase inaudível, seguia cabisbaixa. com medo de desaparecer antes que chegasse ao final do corredor.
Entrava nas salas com o olho inundado pelo desejo, mas com a voz engasgada pelos silêncios.
Uma disputa sem tréguas.
Diziam: "entra muda e sai calada, qual será a dessa minúscula representante de seres humanos?"
Sentada no fundo da sala de aguardos, via-se de cima, reconduzindo seus compassos.
Temerosa escrevia os pensamentos e rasgava-os. Ela ateava fogo nas mais insanas ideias.
Flutuava pelos espaços buscando um pedaço de amontoados de sensações.
Esquecia-se do tempo em que prometera recomeçar do outro lado do disco. Lados de A a Z.
E usava as potencialidades da narrativa para expiar seus surdos silêncios saturados de calares.
Não sabia dizer com ditos, preferia os zunidos.
Imagem de Venícios Cassiano: Em Teotihuacan

quinta-feira, 4 de abril de 2013

'

Do lado de fora um estalido doce e sonoro de gotas que afogam as mágoas das calçadas
Do lado de dentro as lembranças 
A saudade de quem fica parece árdua,
mais árdua do que a saudade de quem foi, de quem vai.
São compromissos distintos, são contratos de lembranças que se misturam ao por-vir e que pouco a pouco viram outros momentos, outros espaços.
Da perspectiva de quem vai, a ideia de quem fica é que a memória se esvai pelo mundo que se achega
O olhar, entretanto, se anuveia de cá, se anuveia de lá e ao contrário do que parece a medida da lembrança se faz distintamente, não se metrifica em verso, não se compõe em prosa.
Do lado de dentro
o estalido continua,
leve, metamorfoseando as idas, 
materializando as vindas.



sábado, 30 de março de 2013

Das memórias de um menino

Doralice morava numa caixa de sapatos.
Cheia de memórias recortadas espalhadas pelas paredes.
Colagens de pedaços de histórias, de sentidos combinados.
As janelas eram delicadamente esculpidas como molduras de amanhecer, as portas construídas pela vontade de ver tardes e noites.
Os móveis eram imaginativamente pintados a cada nova estação, emprestando cores e versos.
Doralice acreditava na sutileza das cores da primavera, mas dava encanto para as do inverno e deixava sob as folhas do outono a caliência do verão.
Toda manhã saía de sua caixa na expectativa de aprender um pouco mais sobre as contas da vida, sobre as ideias de mundo. Voltava às tardes, por vezes, inspirada, por outras, alienada em seu desejo de provar mais sem doer nos riscos.
Olhava o céu e rabiscava sensações.
Mudava os nomes das coisas por esperança, saboreava o inexplicável, mas se enfurecia com seus momentos de descrença e de desespero.
Temia profundamente o desperdício das coisas da vida, receava perder olhares e receava ainda mais o receio que a afastava do pulso, dos suspiros, das lágrimas, da raiva e do riso.
Por dias, assistia o sol mudando esferas.
Uma vida toda para entender.
Toda uma vida para experienciar.



quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Um pouco de água

Uma lágrima é como um pouco de óleo na máquina cansada
é um pulsar inquieto que lubrifica as entranhas, estremecendo-as
é um suspirar dos olhos castigados pelo esquecimento de um sertão.
Uma lágrima é chegada, é partida, é espera.
é timidez e é impulso
e é refúgio.


Decidida como a noite, ela escorre como o céu em fim de tarde e brilha na ponta do queixo, encontrando a pele suavemente e se atirando abismo abaixo.
A expectativa de abraçar o mundo motiva o impulso derradeiro e lá vem o mergulho, outra lágrima encontra o infinito.



*Iluminura de Martha Barros

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

As palavras acreditavam que possuíam asas
As palavras acreditavam que podiam dançar no espaço entre o sol e a lua.
Tímidas, elas sonhavam que coloriam as memórias e que disfarçavam as olheiras do tempo.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

O gosto era de infinito

Hoje tinha gosto de espaço, de finito tempo esvaído em largos passos depositados um após-o-outro, um após-o-outro no solo de terra fértil, imaginativamente fértil. O contato dos dedos com o ar de fim de tarde e o confronto visual que o pôr do sol disponibiliza fez-lhe perceber que no silêncio os pássaros e as brisas nos reviram com uma sutil intensidade. O gosto era de infinito, de vazio absoluto.
Na mesa, as letras invadiam o tempo e o espaço.
Espaço de carne, tempo de memória.
Na ponta do lápis, a proposição de um universo.
As ideias brotavam ora tímidas, ora temerosas, ora egocêntricas. Elas fingiam que eram únicas, donas de si e do mundo. Iam pelos rios, pelos fios, pelas veias e pelos olhos, transbordavam-se todas, até que outros universos as encontravam, as confrontavam. E, frente a frente com outros modos e hábitos achavam graça, pensavam farsas, corriam soltas. Tocavam as carnes, puxavam os fios, empurravam as veias, assopravam os olhos.
Nos dedos e nos lábios o gosto do tempo, o sabor da história.






sábado, 10 de novembro de 2012

De maneira que...

Enquanto lia outra memória, sentiu um arrepio profundo.
Uma fome de rodas, um desejo de palavras vivas, pulsantes.
Pensava em como seria bom se as palavras viessem mais do que os silêncios, do que os silenciamentos.
Depois ruminava: 'Não que os silêncios não fossem indispensáveis', mas causava espanto que eles se vestissem de silenciamentos e insistissem tanto em aparecer no lugar dos confrontos, dos dizeres de carne, osso e pulso.
Depois sussurrava temerosa: 'Não que não dizer não fosse poético',
mas é que dizer coloria as formas, musicava as letras, provocava o olfato, o ouvido, o olhar.
Em seguida, tomava coragem: 'E quem sabe o tato e o ato não fossem convocados, nessa história, a experienciar os modos de mexer no mundo?'
E pensava: 'onde foram parar os dizeres de outros jeitos, os dizeres de outros lugares?'
De que nome seriam chamados? Com que propósitos seriam convocados ou esfumaçados?
Pensava.
Temia perder o jeito com os fazeres.
Lia outra memória, enquanto havia enquanto.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Refugiados


Fugiu de si pela janela!
Com tantos nomes e sem nem um, nenhumzinho.
Deixou a cama bagunçada de livros, o café na cabeceira, renovado a cada hora.
Abandonou montes de palavras caçadas ao sabor do chá de menta intercalado.
Deixou o papel e a caneta, depois
Se entregou à vista da janela, contou conchas na gaveta, foi correr ao som da noite.
Retornou com areia nas cabelos e com barro nas entranhas
Quis ouvir a melodia do ronrono dos meninos
saltadores,
malabaristas da sala, do quarto e do quintal.
Dos escaladores de pernas, com bigodes de orelha a orelha.
Melodia de olhos aureados, dos passos elegantes,
e de uma silhueta impecavelmente confundida com a alegria de ser.
Quis sentir o pulso atento
na melodia do ronronar ouvida de perto, a doce melodia dos olhos que falam
distraindo o coração.
Refúgio leve,
Recanto certo.



quarta-feira, 5 de setembro de 2012

uma saudade.

Uma saudade de coçar o céu da boca,
de apertar artéria torta, de sentir gosto de tempo.
Um desejo de comer pitanga no pé,
de ouvir LP contando fábulas, sentada no chão da cozinha, enquanto aprende a fazer tranças.
Uma vontade de vento nos olhos,
de brisa no balançar dos cílios do alto da garupa.
Ou no alto da primeira corrida apostada de bicicleta.
Uma memória de raspar os tachos e de esconder as provas do crime.
Lembrança de casa na árvore, de corrida no milharal, de joelho na terra e de tesouro secreto.
O anel de brilhantes do doce da padaria, o entardecer na praia.
Doce, doce saudade.
Risos entre lágrimas, sons dos primeiros passos, feijão queimando na panela.
Uma vitrolinha partida, um anjo sem asas.
Uma saudade das palavras de antigamente.

Assim, despertara Doraleia, cheia de memórias, transbordando de sentidos passados e futuros, entrelaçados no hoje.

Hoje é dia de saudade, pensava insistente.

sábado, 1 de setembro de 2012

Um fiapo de sol

O sol estava quente, de escaldar as memórias.
Um fiapo de tempo recordava o movimento constante das ideias.
Enquanto as veias escancaradas exalavam o sentido da vida.
Gota a gota, dia a dia, linha a linha.
O sol penetrava na pele, agitava as gotas, perpassava os dias e exaltava as linhas, inclusive as de expressão.
No peito o pulsar era descompassado, nada de um 'tum' depois do outro, a coisa estava mais para um "tim", para um "bum".
Na cabeça, nada de uma ideia depois da outra, às vezes, tudo, outras vezes, ecos e noutras ainda uma sinfonia apurada, controladamente organizada.
Nos olhos, um vitral.
memórias de ontem, de hoje e de depois.
O sol estava quente e refrescava as lembranças: passos no barro, voos de balanço, saltos de cascatas imaginárias, caças aos tesouros.
Doces memórias que o calor evocava, despudoradamente.
Na vitrola, nada além do som do vento arremessando as folhas umas contra as outras.
E as ideias sussurrando um emaranhado de sentidos, de melodias inesgotáveis.
O sol entrou na retina e ecoou na carne.